Os Maias

“Você está a faiscar, homem! disse Craft, parando diante dele, com as mãos nos bolsos, e contemplando-o um instante do alto do seu resplandecente colarinho. Você flameja!… Você parece que tem uma auréola na nuca!… Você sucedeu-lhe o quer que seja de muito bom!
Carlos espreguiçou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento, em silêncio, encolheu os ombros, e murmurou:
— A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe sucede é, em definitivo, bom ou mau.
— Ordinariamente é mau, disse o outro friamente, aproximando-se do espelho a retocar com mais correção o nó da gravata branca.”

Fim da primeira parte d’Os Maias, onde Carlos acaba de receber uma carta de Madame Castro Gomes, a pedir-lhe que a vá visitar por causa de um familiar que está doente.
Até aqui não trocaram ainda uma única palavra, apenas meia dúzia de olhares que enfeitiçaram Carlos.

O livro é soberbo até esta parte. Os episódios de vida social e as várias personagens-estereótipo que dentro deles se movem são deliciosos. Carlos, que será mais tarde o derrotado da vida, é-o já, com mil projectos que não vêem fim, situação que muito o aflige de vez em quando mas que rapidamente esquece quando o Ega lhe irrompe pela casa adentro com alguma história fantástica ou escandalosa, ou se encontra com a Gouvarinho, ou quando se dá uma oportunidade de saber alguma novidade dos Castro Gomes.
As descrições do seu estado de espirito quando tal acontece, enquanto a persegue infrutiferamente até Sintra, enquanto pensa em mil esquemas para lhe ser formalmente apresentado, nas poucas vezes que a vê e com ela troca um olhar mais ou menos significativo que o transforma num ser sonhador e meio ganzado, são de um romantismo (no sentido literário mas também no sentido moderno da palavra) fora de serie, a roçar a linha do exagero mas sem nunca a ultrapassar. O leitor quase que se perde e desfruta da beleza do efeito que ela lhe provoca, é quase contagiado por toda aquela emoção, não fosse o seu parentesco aquele pequeno facto irritante a latejar no fundo da mente.

A partir desta parte, o livro parece apenas fatal. Até aqui eu queria que eles se conhecessem de uma vez, já cheiravam mal os suspiros do homem por Lisboa. A partir de aqui é como um acidente posto em movimento, imparável, inevitável, e não posso fazer mais nada senão vê-lo desenrolar-se.

“Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome dela; e pareceu-lhe perfeito, condizendo bem com a sua beleza serena. Maria Eduarda, Carlos Eduardo… Havia uma similitude nos seus nomes. Quem sabe se não presagiava a concordância dos seus destinos!”

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